Cadernos de Estudos Linguísticos

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EISSN : 2447-0686
Published by: Universidade Estadual de Campinas (10.20396)
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Cadernos de Estudos Lingüísticos, Volume 64; https://doi.org/10.20396/cel.v64i00.8660585

Abstract:
A primeira pessoa do plural apresenta diferentes possibilidades de interpretação semântica, codificando referentes mais ou menos abrangentes. Os estudos sociolinguísticos evidenciam que o valor semântico atrelado aos contextos referenciais expressos pela primeira pessoa do plural é significativo para a variação entre as formas nós e a gente. A fim de apresentar generalizações a respeito do uso de a gente em função dos traços semânticos do referente, apresentamos um estudo de meta-análise de dezessete pesquisas variacionistas que analisaram a interpretação semântica das formas de primeira pessoa do plural. Inicialmente, realizamos teste de qui-quadrado para cada estudo de forma independente. De modo geral, os resultados da análise univariada mostram que há associação entre a escolha da variante (nós ou a gente) e o traço semântico do referente. Em seguida, com o objetivo de apresentar uma generalização a respeito das chances de uso de a gente com valor semântico específico/determinado, realizamos análise de regressão logística generalizada para cada estudo. Os resultados dão indícios de que os contextos referenciais específicos/determinados apresentam tendência a serem codificados por a gente, o que indica a perda da distinção semântica específico/genérico entre as variantes nós e a gente.
Renato Caruso Vieira
Cadernos de Estudos Lingüísticos, Volume 64; https://doi.org/10.20396/cel.v64i00.8667539

Abstract:
Implicaturas escalares são tradicionalmente definidas como interpretações upper-bound de termos escalares fracos, nas quais estes assumem a máxima força informacional de suas escalas, negando termos mais informativos (e.g. "somente alguns mas não todos") por obra da primeira submáxima de Quantidade de Grice. Aderimos a Noveck & Sperber (2007) que, em sua abordagem baseada na Teoria da Relevância, sugerem ser a maioria dos casos tratados como implicaturas escalares apenas explicaturas de estreitamento conceitual (portanto, nem implicaturas e nem escalares). Porém, ao contrário de Noveck & Sperber (2007), acreditamos que nem mesmo negações implicadas, por termos fracos, de termos fortes cuja adequabilidade contextual seja posta em dúvida devam ser consideradas implicaturas escalares. Propomos um modelo de derivação de tais implicaturas que não se sustenta sobre as relações escalares estabelecidas entre os conceitos mas, sim, na compatibilidade percebida pelos interlocutores entre os sentidos comparados. Procuramos demonstrar que nada além de processos de ajuste conceitual por explicatura em conjunção com regras dedutivas de tipo modus ponens seja necessário para extração de implicaturas de compatibilidade. Assim, o modelo proposto é capaz de explicar uma gama de fenômenos pragmáticos mais vasta do que aqueles classificados como implicaturas escalares, recorrendo a princípios comuns à interpretação geral de enunciados e, no caso das inferências dedutivas, também à interpretação de estímulos não-linguísticos.
Ana Paula Quadros Gomes,
Cadernos de Estudos Lingüísticos, Volume 64; https://doi.org/10.20396/cel.v64i00.8666991

Abstract:
Neste trabalho analisamos o advérbio bem com leitura de maneira modificando sintagmas verbais do português brasileiro. Partindo da visão de que o sintagma verbal pode ser decomposto em uma estrutura de eventos sintaticamente representada, defendemos que bem de maneira seleciona semanticamente subeventualidades durativas (estados ou processos), e sempre será licenciado em sintagmas verbais que possuam algum componente durativo em sua estrutura de eventos. Na seção final do artigo, mostramos como essa perspectiva explica até mesmo a ocorrência do advérbio bem de maneira em sintagmas verbais encabeçados por verbos tipicamente classificados como culminações (achievements). Com isso, acreditamos que o artigo forneça não só uma descrição robusta das propriedades do advérbio sob análise (pelo menos em sua interpretação de maneira) como também um argumento a favor de pensarmos a estrutura do sintagma verbal não como uma estrutura projetada por um item, mas um arranjo sintático-semântico no qual uma raiz verbal pode ser licenciada.
, Wellton Da Silva De Fatima
Cadernos de Estudos Lingüísticos, Volume 64; https://doi.org/10.20396/cel.v64i00.8659619

Abstract:
Este trabalho se inscreve no aparato da Análise de Discurso materialista. Analisamos o funcionamento discursivo do que propomos como lugares de autoridade: fatos de linguagem na relação com a memória constituídos como elementos contraditórios, dadas as condições de produção do discurso. Fazemos referência a imagens e dizeres produzidos nas redes sociais sobre declarações polêmicas ou ofensivas a feministas, recortadas seguindo uma regularidade na qual declarações feitas eram rebatidas em páginas e perfis que, embora (re)conhecidos como progressistas, recorreram a determinados saberes fundamentados nos lugares comuns do, assim (re)conhecido, discurso conservador. Em nossa análise, observamos um funcionamento particular da memória discursiva na movência dos sentidos, produzindo um efeito autoritário também a partir do trabalho das formações discursivas em tensão. Constatamos um atravessamento de sentidos colocando discursos aparentemente incompatíveis numa mesma discursividade, produzindo repetição ao invés de ruptura, por meio do funcionamento dos lugares de autoridade.
Bruno Molina Turra, Valéria Regina Ayres Motta
Cadernos de Estudos Lingüísticos, Volume 64; https://doi.org/10.20396/cel.v64i00.8668159

Abstract:
Partiremos da análise de um fato de língua a fim de pensarmos as relações produzidas para um falante entre dois sistemas linguísticos quando da emergência do equívoco. Fundamentados por uma linguística que nomeamos “milneriana”, que quer dizer uma linguística saussuriana afetada pela psicanálise, buscaremos pensar as noções de materno e estrangeiro postos em causa sob a égide de lalíngua, na medida em que esta é o que faz furo no Um da língua (MILNER, 1978[2012]). Em nossa discussão, trataremos do deslizamento de um sistema linguístico a outro a partir do que Lacan leu em Saussure como “cadeia significante”, um funcionamento já descrito por Freud, em 1901, ao tratar do esquecimento de palavras estrangeiras. Num segundo momento, faremos uma breve reflexão sobre o possível tratamento do equívoco (em oposição ao erro) na sala de aula de língua estrangeira no sentido de sustentá-lo enquanto da ordem da singularidade, daquilo que dá indícios de um sujeito.
Cadernos de Estudos Lingüísticos, Volume 64; https://doi.org/10.20396/cel.v64i00.8668890

Abstract:
Esta pesquisa revisita a aquisição das sílabas de ataque ramificado CCV (Consoante1+Consoante2+Vogal) em Português Brasileiro, investigando como o molde silábico é categorizado ao longo do desenvolvimento fonológico infantil e por que este desenvolvimento ocorre da forma que ocorre. Para caracterizar o alvo sendo adquirido, um estudo de corpus descreve a variação CCV→CV presente na fala de adultos paulistanos (como em ‘outro’→[ʹo.tʊ]) utilizando dados do Projeto SP2010 (MENDES, 2013). Já para caracterizar o desenvolvimento infantil, conduzimos um experimento de produção e compreensão de fala (mispronunciation detection task). Como arcabouço teórico, o Princípio da Tolerância (YANG, 2016) modela a construção do contraste entre as estruturas CCV-CV, estabelecido com base no adensamento fonológico do Léxico (JUSCZYK, LUCE & LUCE, 1994). O estudo constata que, ao adquirir CCV, a criança adquire uma sílaba fonologicamente pouco densa, foneticamente variável e suscetível a processos de neutralização do contraste CCV-CV. Defendemos que tais características do input levam a uma incorreta generalização de CCV como opcional, tomando CV como uma forma alternante – tanto em contextos átonos (o que é encontrado na fala adulta) como em contextos tônicos (que não ocorre na fala adulta paulistana). A produtividade desta hipergeneralização é capturada pelo Princípio da Tolerância e decorre da alta concentração de CCVs reduzíveis no vocabulário inicial da criança, sendo superada com o crescimento lexical. A hipergeneralização da variação CCV~CV reflete-se no teste de detecção de erros apontando reconhecimento de CV→CCV (‘dente’→‘d[ɾ]ente’), mas não de CCV→CV (‘prato’→’pato’, ‘preto’→’peto’) por crianças que simplificam CCV em sua fala. A maior taxa de detecção de vizinhos CCV-CV no teste (‘prato’→‘pato’ é mais detectado que ‘preto’→‘peto’) aponta a construção do contraste como um ponto-chave no desenvolvimento fonológico. Com isso, argumentamos que a aquisição CCV passa por um momento de incorreta neutralização do contraste estrutural da sílaba.
, Kelly Yasmin Belarmino Almeida, Keven Xavier Do Carmo, Laviny Vitória Braga Vicente, Rafael Macário Fernandes
Cadernos de Estudos Lingüísticos, Volume 64; https://doi.org/10.20396/cel.v64i00.8664497

Abstract:
As narrativas caracterizam-se principalmente por apresentar uma sequência temporal de eventos semanticamente relacionados, frequentemente intercalados com enunciados que trazem informação de fundo. Denominamos temporalidade a relação de referência temporal que permite a localização dos eventos em uma sequência no tempo. Essa referência é expressa através de diferentes recursos pragmáticos, lexicais e morfológicos. No caso de uma segunda língua, a aquisição da expressão da temporalidade frequentemente se dá em três estágios, nomeados com base nesses recursos. Realizamos uma análise orientada pelo significado de amostras de interlíngua na “variedade básica” de português do Brasil como segunda língua, a partir de narrativas baseadas em um livro infantil, eliciadas de seis aprendizes iniciantes, falantes de diferentes línguas maternas (italiano, holandês, alemão e espanhol). Identificamos a interlíngua de um aprendiz com o estágio pragmático e a dos demais, com o estágio lexical. Como esperado, as amostras dos aprendizes hispano-falantes apresentaram características diferentes das dos demais aprendizes, destacando-se o emprego de morfemas temporais de sua língua materna com radicais do português e a ausência de formas bases previstas para esse estágio. Em síntese, não encontramos tais morfemas em padrões regulares em nenhuma amostra, exceto por formas muito frequentes na língua alvo, adquiridas de maneira não analisada. Ainda assim, concluímos que todas as narrativas foram coerentes e que a proximidade entre uma língua materna e sua língua alvo pôde alterar as características desses estágios considerados universais.
Cadernos de Estudos Lingüísticos, Volume 64; https://doi.org/10.20396/cel.v64i00.8664758

Abstract:
Este artigo apresenta uma abordagem crítica a Paul Henry, em relação à sua contestação ao conceito de pressuposição de Oswald Ducrot, o que Henry fez com base em termos como “psicossocial”, “persuasão” e “influência”, termos esses estranhos à epistemologia ducrotiana. Nossa metodologia explora um melhor tratamento teórico constituinte da noção de pressuposição argumentativa, que, ao contrário do que apresentou Henry, nunca se opera isolada, mas é sempre operável em uma démarche argumentativa composta de pressuposto (pp), posto (p) e encadeamento (). Conservando seus méritos, defendemos a hipótese de que Henry não desconstruiu porque não abordou a pressuposição argumentativa ducrotiana, mas trabalhou pontos de uma pressuposição-defeito mais limitada, que não resiste a ambiguidades e paradoxos, desconsiderando envergaduras e refinamentos da démarche argumentativa e suas cinco constitutividades, pelas quais a pressuposição ducrotiana insiste e resiste.
David Sena Lemos, Alessandra Del Ré
Cadernos de Estudos Lingüísticos, Volume 64; https://doi.org/10.20396/cel.v64i00.8668238

Abstract:
Este trabalho constitui um recorte de um estudo mais amplo sobre aquisição do português brasileiro (PB) como segunda língua (L2) em contexto escolar, na fronteira norte do Brasil (Pacaraima) e sul da Venezuela (Santa Elena de Uairén). Analisamos a aquisição do PB, em especial a questão do code-switching, por três crianças venezuelanas de 4 anos de idade interagindo com falantes nativos de PB em sala de aula (Educação Infantil). Foram realizadas 18 sessões, entre 30 e 45 minutos, filmadas em sala de aula e que foram posteriormente transcritas a partir da ferramenta CHAT/CLAN. Trata-se de um estudo longitudinal, de cunho qualitativo. Para a análise dos dados, partimos de uma abordagem dialógico-discursiva que busca entender o modo de funcionamento da linguagem e a produção de sentido que se dá nas relações empreendidas entre sujeitos, na relação com outros discursos, com os aspectos socioculturais e ideológicos, em determinados contextos discursivos (BAKHTIN; VOLOCHÍNOV, 2014 [1929], SALAZAR-ORVIG, 2010; SALAZAR-ORVIG et. al., 2010, Del Ré et al, 2014a). Os resultados revelam que as crianças praticam code-switching em eventos discursivos específicos da esfera escolar de forma distinta, sobretudo motivadas por fatores externos, tais como a temática da interação ou a experiência com os gêneros discursivos canções e contos infantis.
Joyce Mattos
Cadernos de Estudos Lingüísticos, Volume 64; https://doi.org/10.20396/cel.v64i00.8664592

Abstract:
Inscrevendo-nos em uma semântica enunciativa materialista, tendo em conta princípios da Análise de Discurso (AD) francesa, neste artigo contrastamos os sentidos de nome enunciados por uma personagem de Romeu e Julieta (1597), de Shakespeare, com a conceitualização de nome proposta por Guimarães (2002). A fim de apreender o funcionamento do nome próprio de pessoa dentro do mundo da peça, mobilizamos pressupostos materialistas sobre enunciação e sentido conforme desenvolvidos por Pêcheux ([1975] 1995), Guimarães (1989) e Orlandi (1990, [1999] 2007). Para além, buscamos pensar a nomeação em seu caráter político de partilha do sensível, na elaboração de Rancière (2000), cuja teoria em certa medida comparte, com a Semântica do Acontecimento de Guimarães, dos mesmos pressupostos materialistas sobre enunciação e sentido. O objetivo foi, a partir da combinação de tais formulações teóricas, ponderar a pergunta e a afirmação postas nos versos: “Que há num nome? Aquilo a que chamamos rosa / Teria o mesmo perfume se chamada por qualquer outro nome” – estes são dizeres da personagem Julieta, que quer o nome da personagem Romeu um rótulo vazio. Concluímos que, de um ponto de vista materialista histórico, o nome muda, sim, a rosa, já que Romeu, tendo sido nomeado Romeu (seu nome) e designado um Montéquio (seu sobrenome) ao nascer, se constituiria, inevitavelmente, parte de uma história hostil como membro de uma família inimiga à de Julieta (designada uma Capuleto). Não obstante a paixão que entorpece o olhar dos amantes, o político e a relação de confronto persistem, e o comum partilhado no sensível entre todos aqueles que participam da contenda entre as famílias tem implicações não só na esfera da intimidade dos dois jovens apaixonados, como também no âmbito da Verona shakespeariana, cidade em que se passa a peça.
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