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Joana Gonçalves Luís, Médico de Família, Bárbara Adelina Costa Martins
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 446-455; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i5.12960

Abstract:
Objetivos: A nevralgia pós-herpética (NPH) é a principal complicação do herpes zoster (HZ), tendo um impacto significativo na qualidade de vida dos doentes e nos custos em saúde. Com esta revisão pretende-se avaliar a eficácia de diferentes terapêuticas utilizadas no tratamento agudo da zona na prevenção desta complicação. Fontes de dados: MEDLINE/PubMed, National Guide Clearinghouse, Canadian Medical Association Practice Guidelines, Bandolier, Evidence-Based Medicine Online, DARE, TRIP Database e The Cochrane Library. Métodos de revisão: Pesquisa de guidelines, meta-análises, revisões sistemáticas e ensaios clínicos controlados e aleatorizados publicados entre abril de 2010 e março de 2020, redigidos em inglês, português ou espanhol, utilizando os termos MeSH herpes zoster e neuralgia, postherpetic. Resultados: Dos 333 resultados obtidos na pesquisa inicial foram selecionados sete artigos para inclusão nesta revisão, nomeadamente duas meta-análises, uma revisão sistemática e quatro ensaios clínicos controlados e aleatorizados. A evidência encontrada relativamente à utilização de antivíricos, glucocorticoides ou gabapentinoides no tratamento do HZ não demonstrou benefício na prevenção da NPH. Apenas as opções por amitriptilina ou vitamina C endovenosa revelaram resultados positivos, ainda que com evidência escassa e limitada. Conclusão: Esta revisão permite concluir que nenhum dos tratamentos habitualmente utilizados no tratamento agudo do HZ previne a ocorrência de NPH. Apesar dos resultados positivos da amitriptilina e da vitamina C não existe ainda evidência suficientemente robusta que permita recomendar o uso disseminado destes fármacos na fase aguda do HZ com o intuito de prevenir esta complicação. Mais estudos são necessários neste sentido, tendo em conta a morbilidade e custos em saúde associados à NPH.
Mariana Martinho, Médico de Família, Ina Garuta, Isabel Marques, Sérgio Cardoso, Teresa Libório, Joana Costa
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 468-474; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i5.13066

Abstract:
Introdução: O pé pendente define-se pela incapacidade em elevar o pé por diminuição da força dos músculos dorsiflexores. Para elaborar um plano de tratamento é necessário determinar a sua etiologia. Cabe, assim, ao médico de família reconhecer as situações em que a gestão desta entidade poderá ser feita exclusivamente em cuidados de saúde primários, diferenciando-as das que poderão exigir avaliação e orientação em meio hospitalar. Descrição do Caso: Homem de 71 anos com hipertensão arterial e dislipidemia, medicado com indapamida. Em consulta com o médico de família referia que, há dois dias, havia permanecido sentado por duas horas com a perna direita cruzada sobre o membro inferior contralateral. Ao levantar-se notou dormência do pé direito, o qual não conseguia elevar. À observação apresentava marcha em steppage, com pé direito pendente e diminuição da sensibilidade do dorso do mesmo. Foi pedida eletromiografia, que documentou acentuada lesão axonal do nervo peroneal comum direito abaixo do colo do perónio, compatível com compressão prolongada. Foi submetido a sessões de fisioterapia, demonstrando resolução completa do quadro após três meses. Comentário: A neuropatia do nervo peroneal comum é a causa principal de pé pendente e a terceira neuropatia focal mais frequente, depois do nervo mediano e nervo cubital. A etiologia mais frequente é a compressiva. O local mais afetado é onde o nervo contorna o colo do perónio, manifestando-se por marcha em steppage, consequente à diminuição da força dos músculos dorsiflexores do pé. Embora o diagnóstico seja habitualmente clínico, a maioria dos pacientes requer eletromiografia. O tratamento inicial costuma ser conservador, sendo comum ocorrer resolução das queixas em três meses. Esta é uma condição que poderá ser pouco frequente na prática clínica em medicina geral e familiar, mas cuja abordagem poderá, muitas vezes, ser feita em cuidados de saúde primários. É importante saber tranquilizar os pacientes quanto à semiologia, abordagem terapêutica e prognóstico.
Cristiana Santos Antunes, Médico de Família, Mariana Costa Figueiredo, Filipe Fernandes Bacalhau, Francisco Ferreira Silva, Maria Esmeralda Covas Amador, Luís Miguel Duque
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 456-461; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i5.13084

Abstract:
Introdução: A síndroma de febre de origem indeterminada (FOI) clássica é definida pela presença de temperatura corporal superior a 38,3 °C com duração superior a três semanas, sem diagnóstico definido, apesar de investigação apropriada durante três consultas em ambulatório ou três dias em internamento hospitalar. Implica a realização de uma avaliação criteriosa pelo médico de família, da qual deve resultar uma marcha diagnóstica adequada. Entre as múltiplas etiologias possíveis, a infeção pelo vírus de imunodeficiência humana (VIH) é uma entidade a ter em conta, nomeadamente na presença de fatores de risco para a mesma. Descrição do Caso: Mulher de 47 anos, raça caucasiana, com antecedentes pessoais de neoplasia do colo do útero submetida a conização há quatro anos. É fumadora, sem hábitos alcoólicos ou toxicofílicos conhecidos. Divorciada, integra uma família monoparental desde 2005, sem vida sexual ativa há cerca de oito anos. Recorre a consulta de doença aguda por quadro de mal-estar geral, cansaço, febre de predomínio vespertino e tosse seca com várias semanas de evolução. Após as primeiras etapas de investigação, a etiologia mantinha-se indeterminada, apesar da recorrência dos sintomas. Perante o quadro clínico de síndroma de FOI foi realizada investigação etiológica mais alargada, da qual se destaca serologia positiva para VIH-1. A utente foi referenciada para consulta de infeciologia e medicada com antirretrovirais e terapêutica dirigida a pneumocistose, uma doença definidora de síndroma de imunodeficiência adquirida (SIDA). Este diagnóstico teve um impacto profundo a nível pessoal, familiar e social, com necessidade de seguimento em consulta de psicologia e psiquiatria. Comentário: A investigação etiológica da síndroma de FOI neste caso clínico conduziu a um diagnóstico inesperado de SIDA, o que sensibilizou a equipa clínica para a importância do rastreio atempado de VIH, para a correta abordagem da síndroma de FOI e para a importância do acompanhamento longitudinal pelo médico de família, de acordo com o diagnóstico estabelecido.
Margarida Paixão, Andreia Leite, Etelvina Calé
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 475-481; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i5.12985

Abstract:
Introdução: A prescrição médica inapropriada é uma das principais causas associadas à emergência de resistência a antimicrobianos. Assim, as auditorias à prática clínica enquanto ferramentas para a melhoria da qualidade numa instituição são essenciais em programas locais de prevenção e controlo de resistências a antimicrobianos. O presente artigo detalha a metodologia de auditoria utilizada com o objetivo de melhoria da prescrição médica em cuidados de saúde primários no âmbito da pneumonia adquirida na comunidade. Métodos: No Agrupamento de Centros de Saúde da Amadora, durante o ano de 2019, realizou-se uma auditoria a prescrições antimicrobianas, de acordo com duas normas de orientação clínica da Direção-Geral da Saúde referentes a pneumonia adquirida na comunidade. Todas as prescrições realizadas durante o ano de 2018 enquadráveis nas normas selecionadas foram verificadas. Os componentes da prescrição antimicrobiana selecionados para esta auditoria foram: o antimicrobiano prescrito, a duração da terapêutica e a existência de justificação da escolha terapêutica no software de apoio ao clínico, caso esta diferisse das normas. Resultados: Num total de 292 processos verificados, 42,0% estavam em conformidade com as orientações presentes nas normas. A percentagem de conformidade entre as diferentes unidades de saúde familiar e cuidados de saúde personalizados variou entre 0,0 e 63,4%. Conclusão: A presente auditoria permitiu construir uma metodologia a aplicar em auditorias internas ao ACeS. Permitiu igualmente reajustar as necessidades formativas dentro do ACeS. Até ao momento ainda não foi avaliada a efetividade da mesma.
Pedro Alexandre Vieira, Médico de Família, Paulo Jorge Barros, Tânia Caseiro, Natalina Rodrigues, João Arcanjo
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 393-406; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i5.13135

Abstract:
Objetivos: A COVID-19 é a primeira pandemia severa do mundo moderno, tendo já colapsado diversos sistemas de saúde, obrigando-os a adaptar-se. Este artigo pretende analisar a atividade médica numa unidade de cuidados primários durante o primeiro pico da pandemia, de modo a avaliar os impactos desta no acompanhamento clínico da população. Métodos: Estudo retrospetivo que analisou os dados de todas as consultas efetuadas numa unidade de cuidados primários entre 1 de março e 31 de julho de 2020 e em período homólogo de 2019 e 2018. Resultados: Em 2020 registou-se um aumento de consultas quando comparado com igual período de 2019 e 2018 (14.871, 14.326 e 12.996, respetivamente), sendo a maioria não presencial, ao contrário de anos anteriores (71,6% em 2020, 42,6% em 2019 e 35,2% em 2018). Verificou-se também uma diminuição da maioria das consultas de vigilância e de rotina (2.562 em 2020, 3.067 em 2019 e 2.975 em 2018) e um aumento das consultas por patologia psiquiátrica, destacando-se a ansiedade (362 em 2020, 252 em 2019 e 238 em 2018). Conclusões: Apesar da pandemia, o número total de consultas aumentou em 2020, embora à custa de consultas não presenciais e com uma diferente prevalência de diagnósticos. Ocorreram menos consultas de vigilância e aumentaram as consultas por patologia psiquiátrica, possivelmente decorrentes do impacto socioeconómico da pandemia. Trata-se da primeira casuística da atividade médica de cuidados primários registada durante a primeira vaga da pandemia em Portugal.
Tiago Francisco Da Cunha Costa, Ana Filipa Paraíso, Daniela Marafona Pereira, Maria João Coelho
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 436-444; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i5.12962

Abstract:
Objetivos: Rever a evidência existente quanto à eficácia, tolerabilidade e segurança do hipericão no tratamento da perturbação depressiva (PD). Fontes de dados: NICE, Canadian Medical Association Infobase, PubMed – Clinical Queries, The Cochrane Library, BMJ, Bandolier e DARE – Centre for Reviews and Dissemination. Método: Foi realizada a pesquisa de artigos científicos em plataformas online de medicina baseada na evidência, com as palavras-chave Hypericum e Depressive Disorder. A seleção dos artigos foi feita com base no título, ano de publicação e resumo. Resultados: Foram incluídas nesta revisão duas normas de orientação clínica (NOC), três meta-análises (MA), duas revisões sistemáticas (RS) e um artigo original (AO). Uma NOC referiu que o hipericão pode ser usado como primeira linha na PD major ligeira a moderada e como tratamento adjuvante de segunda linha na PD major moderada a grave. A outra NOC não aconselha o seu uso. As MA e as RS concluíram que o hipericão apresenta uma eficácia superior ao placebo no tratamento da PD, sendo que duas MA e duas RS acrescentaram que não há aumento dos efeitos adversos. Duas RS referiram o risco de interações com outros fármacos. O AO também afirma a eficácia do hipericão nas mulheres na pós-menopausa. Conclusão: Existe evidência quanto à eficácia do hipericão na PD ligeira a moderada. Os dados disponíveis parecem ser consistentes quanto à sua boa tolerabilidade, mas também quanto ao risco de interações com outros fármacos. As limitações da recomendação prendem-se essencialmente com o facto dos mecanismos de ação não estarem completamente esclarecidos.
Rita Gaspar Marques, Pedro Augusto Simões, Bárbara Santa Rosa, Margarida Silvestre
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 482-488; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i5.13232

Abstract:
O aumento atual da população idosa obriga a uma adequação constante dos cuidados de saúde e da atuação médica. As particularidades desta população levantam várias questões éticas que têm de ser discutidas num âmbito alargado, para melhorar a prestação de cuidados e facilitar a atuação médica aquando do surgimento de dilemas éticos. Neste contexto, uma das questões éticas mais frequentes prende-se com o respeito pela autonomia dos idosos, já que muitas vezes se associa a idade avançada à perda de capacidades físicas e psíquicas e, portanto, de autonomia. Porém, a idade, por si só, não determina a incapacidade de tomar decisões nem a vulnerabilidade. Ou seja, embora o contexto e as circunstâncias que rodeiam os idosos possam influenciar negativamente ou mesmo limitar a sua autonomia, o médico não pode assumir uma atitude paternalista e decidir pelo doente. O médico deve fazer um esforço especial para analisar e compreender a capacidade de decisão do doente e todo o contexto que o envolve, nomeadamente as suas vulnerabilidades, experiência de doença, perspetivas de vida e influência da família. Assim, o médico poderá utilizar este conhecimento para promover a capacidade de decisão do idoso, de modo a garantir autonomia, equidade e justiça para estes doentes. Além disso, promover a autonomia potencia também a participação ativa na comunidade, envelhecimento ativo e qualidade de vida. O médico de família tem um papel privilegiado e preponderante nesta tarefa. A sua proximidade, a possibilidade de contactos frequentes e prolongados no tempo e o conhecimento que tem das suas vidas, perspetivas e valores permitem a estes profissionais fomentar e promover a autonomia dos idosos.
Isabel Santos
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 389-391; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i5.13359

Abstract:
Recentemente o Sr. Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, numa entrevista a um órgão de comunicação, fez declarações que conduziram a múltiplas interrogações e declarações institucionais condenatórias. Essa entrevista, para além de revelar ignorância sobre a Medicina Geral e Familiar, sobre o que se faz nesta especialidade, revela erros comuns de raciocínio e lógica discursiva. Se as premissas ou os axiomas são falsos, nem a argumentação nem as conclusões são válidas.
Patricia Alexandra Cebola, Médico de Família, Marta Filipa Rainho, António Alexandre Teixeira
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 462-467; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i5.13069

Abstract:
Introdução: A neuropraxia é uma forma de neuropatia periférica que o médico de família (MF) pode gerir por ter excelente prognóstico e reversibilidade total. Descrição do Caso: Homem de 46 anos realizou colecistectomia por litíase biliar, em fevereiro de 2019, e por isso perdeu 10kg. No dia 18 de novembro de 2019 recorreu à consulta da MF por incapacidade de dorsiflexão do pé esquerdo, acompanhada de hipoestesia e diminuição da força muscular do membro inferior esquerdo desde o dia 11 de setembro de 2019, após estar sentado com a perna direita cruzada sobre a esquerda, durante cerca de três horas. Foi pedido eletromiograma, que demonstrou neuropraxia do nervo ciático popliteu externo esquerdo. Seis meses após a lesão inicial todos os sintomas desapareceram espontaneamente. Comentário: As manifestações clínicas da neuropraxia são bastante exuberantes e incapacitantes, o que pode levar o doente a pensar que tem uma doença grave. Saber abordar e explicar ao doente o que é esta lesão e o seu prognóstico é fundamental para evitar sobrediagnóstico e sobretratamento.
Joana Sousa, Médico de Família, Mariana Barreto, Lara Cabral, Francisca Mendes, Anabela Balazeiro
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 408-417; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i5.13087

Abstract:
Introdução: O médico de família é frequentemente o primeiro contacto com o sistema de saúde, devendo avaliar a necessidade de referenciação para os cuidados de saúde secundários (CSS). O objetivo deste trabalho foi avaliar a satisfação dos médicos de medicina geral e familiar relativamente à articulação com os CSS. Material e Métodos: Estudo multicêntrico, longitudinal. Participantes: médicos de MGF. Dados recolhidos através do preenchimento de questionário. As variáveis foram avaliadas numa escala de 1 a 5, por ordem crescente de satisfação e incluíram: idade, sexo, categoria profissional, área e local de trabalho, acesso e qualidade dos registos das consultas hospitalares, do serviço de urgência e carta de alta, acesso aos exames complementares dos CSS, tempos de resposta e informação de recusa de referenciações, satisfação global. Resultados: Foram obtidas 228 respostas. A pontuação média das respostas variou entre 2,2 e 3,6. A satisfação da articulação na sua globalidade obteve uma média de 2,6±0,74, com 50% dos profissionais a responder «razoável», existindo diferença estatisticamente significativa consoante a área de trabalho. Discussão: Os resultados obtidos revelam que ainda existe um longo caminho a percorrer relativamente à articulação entre os CSP e CSS. Conclusão: É crucial existir uma articulação eficiente entre os CSP e CSS para garantir que os utentes têm acesso aos cuidados de que necessitam, no lugar e tempo mais adequados. O facto de se ter utilizado um questionário não validado, de a amostra ser de pequena dimensão e não existir uma representação equitativa das diferentes áreas limita a robustez das conclusões.
Susana Pereira Costa, Médico de Família, Inês Lopes Antunes, Ana Margarida Gomes, Cláudia Ho, Mafalda Lemos Caldas, Ana Rute Marques, Ana Monteiro Pereira, Ana Teresa Peres, Gema Ponce Revilla, et al.
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 421-434; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i5.13086

Abstract:
Objetivos: Resumir as informações publicadas acerca dos problemas de coagulação em adultos com SARS-CoV-2, incluindo características, fisiopatologia, diagnóstico e resposta ao uso profilático ou terapêutico de anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários. Métodos: Realizada uma revisão abrangente, de acordo com as guidelines Joanna Briggs Institute Guidelines on Scoping Reviews e Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Scoping Review guidelines (PRISMA-ScR). Efetuada pesquisa nas bases de dados MEDLINE®, SciELO® e Web of Science® entre 1 e 2 de maio de 2020. A seleção dos artigos foi dividida em etapas sequenciais considerando: título, resumo e artigo integral. Em cada etapa os artigos foram aceites ou rejeitados tendo em conta os critérios de inclusão e exclusão. Foi feito o mapeamento dos dados e a evidência relevante foi sumarizada. Resultados: Após seleção obtiveram-se 106 artigos. Destes, 36 correspondiam a cartas, 28 a estudos originais, 25 a revisões e 14 a relatos de caso; uma meta-análise, um comentário e um consenso também foram incluídos. Os resultados mostraram associação entre COVID-19 e complicações trombóticas, embora com diferentes tipos de eventos e taxas de frequência. A tríade inflamação, disfunção endotelial e coagulopatia parecem estar subjacentes às alterações fisiopatológicas. As técnicas laboratoriais e de imagem podem ser úteis para uma intervenção adequada. A profilaxia com anticoagulantes parentéricos, preferencialmente heparina de baixo peso molecular (HBPM) em dose intermédia, entre as comummente utilizadas para profilaxia ou tratamento, está indicada em pacientes hospitalizados, especialmente com doença grave. Deve ser mantida por um período variável após a alta, dependendo do doente. A anticoagulação terapêutica parece não diferir de outras situações previamente conhecidas. Conclusões: Várias incertezas persistem na abordagem dos problemas da coagulação em pacientes com infeção por SARS-CoV-2. As informações existentes dizem respeito principalmente ao contexto hospitalar e têm origem em fontes pouco robustas. Assim, são necessários ensaios clínicos aleatorizados e controlados para sustentar as decisões clínicas em todos os estadios.
Ana Margarida Dias Marques, Médico de Família, Ana Lúcia Silva Pereira
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 377-382; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i4.13143

Abstract:
O plano de formação em medicina geral e familiar corresponde a um processo bem definido de formação médica contínua que, a partir de março de 2020, se viu balançado na sua estrutura, em detrimento da mobilização dos médicos internos para áreas de atuação não planeadas, mas de extrema importância no combate à pandemia por COVID-19. Neste contexto houve um desvio do percurso formativo que, embora sentido de forma desigual pelos diferentes anos do internato médico, se revelou transversal, existindo uma potencial quebra do fio condutor da aprendizagem da medicina geral e familiar. Não obstante, a pandemia veio constituir uma força motriz para o médico interno desenvolver novas competências e em áreas até então por explorar, das quais se destacam a aquisição de noções de trabalho em equipa e competências comunicacionais, bem como o aperfeiçoamento das técnicas de consulta telefónica. Também o binómio interno-orientador se tornou mais coeso, pela aprendizagem conjunta em tempo real, e registou-se um enfoque da atividade clínica em detrimento das tarefas curriculares. Sugerem-se estudos que se continuem a debruçar sobre o grau de motivação dos médicos internos de medicina geral e familiar e sobre a forma como as suas novas competências poderão constituir elementos de valorização individual.
Marlene Areias, Médico de Família, Paulo Reis-Pina
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 302-312; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i4.13037

Abstract:
Introdução: A medicação potencialmente inapropriada (MPI) é cada vez mais alvo de estudo e atenção, pelas consequências negativas que pode ter num doente vulnerável. Objetivo: Determinar a prevalência da MPI e das interações medicamentosas em idosos acompanhados por equipas domiciliárias nos últimos doze meses de vida. Material e Métodos: Estudo quantitativo, descritivo, retrospetivo e observacional. Identificação da MPI, usando os critérios STOPPFrail, nos idosos com ≥ 65 anos acompanhados pelas equipas comunitárias de suporte em cuidados paliativos nos Açores, que faleceram entre janeiro de 2016 e dezembro de 2018. Resultados: Foram incluídos 137 doentes, sendo 72 homens (52,55%), com uma mediana de 78 anos (amplitude interquartil 73-84). A prevalência de MPI foi de 90,51% (n=124), existindo sobretudo prescrição de medicação sem evidência clínica clara (51,09%, n=70) e de inibidores da bomba de protões (45,99%, n=63). Foram contabilizadas 1.107 interações medicamentosas em 120 doentes (87,59%). A MPI esteve envolvida nas interações de 98 doentes (71,53%) e em 473 das interações medicamentosas clinicamente significativas (46,78%). Conclusão: A prevalência de MPI é elevada em idosos nos últimos doze meses de vida. O uso dos critérios STOPPFrail pode ajudar a identificar a MPI e a delinear um plano para a sua redução, de preferência num contexto de trabalho interdisciplinar.
Adriana Maria Madeira e Silva, Médico de Família, Vasco André Gonçalves Varela
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 345-350; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i4.12912

Abstract:
Introdução: O carcinoma do endométrio é a neoplasia maligna ginecológica mais comum na mulher. A recorrência local ou à distância é um dos principais problemas que ocorre após o tratamento. Com este caso pretende-se alertar para a eventual recidiva tardia após tratamento do carcinoma do endométrio, evidenciando o papel do médico de família (MF) no seguimento dos doentes ao longo do tempo. Descrição do caso: Mulher, 74 anos, com história de neoplasia do endométrio submetida a cirurgia e radioterapia em 2010, recorreu à consulta do MF por ter apresentado um mês antes início súbito de disartria, alteração da coordenação motora e posterior instalação de hemiparesia direita. Foi admitido um acidente vascular cerebral isquémico em fase não aguda, tendo sido solicitados meios complementares de diagnóstico. Quando voltou à consulta para mostrar os exames, as hipóteses diagnósticas colocadas foram metástase cerebral vs glioblastoma, tendo sido encaminhada para o serviço de urgência dado o concomitante agravamento do estado neurológico. Foi avaliada pela neurocirurgia e submetida a intervenção cirúrgica, tendo ficado completamente assintomática e o resultado histológico revelou metástase de adenocarcinoma bem diferenciado de provável origem ginecológica. Comentário: O desenvolvimento de metástases no sistema nervoso central a partir de cancros ginecológicos primários é um evento raro, sendo mais frequente nos primeiros três anos após o tratamento. Contrariando os dados existentes na literatura atual, este caso demonstra o diagnóstico de doença metastática nove anos após o tratamento do carcinoma do endométrio, reforçando o papel fundamental do MF no acompanhamento dos utentes, uma vez que, conhecendo-os, está sensibilizado para identificar fatores de risco, bem como para detetar manifestações clínicas e sinais de alarme de várias patologias.
Paulo Santos, Médico de Família, Tiago Maricoto, Ana Rita Jesus Maria, Ana Luísa Neves
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 291-292; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i4.13323

Ana Luísa Teixeira, Médico de Família, Vera Teixeira
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 362-365; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i4.13083

Abstract:
Introdução: A fitofotodermatite consiste numa reação inflamatória causada pela exposição da pele a agente tópico vegetal fotossensibilizante contendo furocumarinas, seguida de exposição a radiação ultravioleta. O caso clínico apresentado mostra a importância de uma cuidada anamnese aquando da avaliação clínica, já que a mesma é considerada a pedra basilar para o diagnóstico desta patologia. Descrição do caso: Homem, 59 anos, técnico de análises clínicas, com antecedentes pessoais de hipertensão arterial essencial medicada e controlada com ramipril 2,5mg e fototipo de pele Fitzpatrick II. Recorre à consulta por quadro de eritema linear e vesículas discretas de conteúdo claro na região anterior de ambos os antebraços que notou subitamente de manhã, na semana anterior. Negava prurido, mas referia sensação de calor e ardor nas lesões. Negava ainda conhecimento de fator desencadeante do quadro clínico, alergias conhecidas, aplicação de algum novo produto cosmético ou fármaco ou exposição solar prolongada, reforçando não ter havido alteração de hábitos diários. Após anamnese mais detalhada, o utente referiu que carregou em braços resíduos provenientes da poda do crescimento excessivo do seu terreno de cultivo, o que incluía arruda. O diagnóstico de fitofotodermatite foi assim estabelecido. Comentário: A família das Rutaceae, onde está incluída a arruda, é a segunda família de plantas que tem mais casos associados de fitofotodermatite. O diagnóstico desta patologia é clínico, sendo a anamnese fundamental para apurar a exposição a plantas que contenham furocumarinas. Neste caso, a apresentação característica de eritema linear e vesículas, com sensação de ardor, sem prurido, aliada a história de exposição a planta produtora de furocumarinas permite estabelecer o diagnóstico. A prevenção é o melhor tratamento, já que a eficácia da aplicação de corticoides tópicos, anti-histamínicos e outras intervenções tem evidência limitada. A hiperpigmentação surge uma a duas semanas após a exposição e pode persistir por mais de um ano.
Diana Patrícia Pereira Coelho, Médico de Família, Inês José Maia da Silva, Hiroshi Okai
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 352-356; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i4.13014

Abstract:
Introdução: A estenose da artéria subclávia proximal, condicionando a síndroma de roubo da subclávia, é frequentemente secundária a doença arterial aterosclerótica. Pode ser totalmente assintomática ou cursar com sintomas de isquemia do membro superior ipsilateral ou sintomas de isquemia transitória da circulação cerebral posterior. Apesar de o diagnóstico definitivo ser imagiológico, as alterações ao exame objetivo são fortemente sugestivas, nomeadamente um diferencial de pressão arterial entre os dois membros superiores. Descrição do caso: Mulher de 69 anos, com HTA, DM tipo 2, dislipidemia e obesidade, recorreu à consulta por tonturas, cefaleias e descida dos valores tensionais, com dois meses de evolução, tendo decidido suspender a medicação anti-hipertensora. Referia episódio prévio de cefaleia, disartria súbita e sensação de “língua presa”, que motivou ida ao serviço de urgência. Neste, quando observada, já não apresentava qualquer alteração objetiva. No exame físico, na consulta do MF, destacava-se uma PA 108/75mmHg, avaliada no membro superior esquerdo. Devido aos vários fatores de risco ateroscleróticos e ao episódio prévio sugestivo de AIT foram pedidos exames complementares de diagnóstico, incluindo ecodoppler dos vasos cervicais, que demonstrou um fluxo retrógrado da artéria vertebral esquerda, sugestivo de estenose da artéria subclávia esquerda proximal. Na sequência, um EO minucioso revelou um diferencial de PA, entre os dois membros superiores (108/79mmHg à esquerda e 170/81 à direita). Foi recomendado retomar a medicação anti-hipertensora, reforçado o controlo dos múltiplos fatores de risco ateroscleróticos e referenciada a cirurgia vascular. Comentário: Neste caso, os valores tensionais eram aparentemente diminuídos; contudo, após a avaliação da pressão arterial em ambos os membros superiores, constatou-se que a utente mantinha uma HTA grau 2 não controlada. Os autores pretendem alertar para a importância de, no meio das muitas tarefas do dia-a-dia, ser mantida uma boa prática semiológica na determinação da pressão arterial, em ambos os braços.
Rodrigo Miguel Loureiro, Médico de Família, Daniela Alves de Azevedo
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 330-341; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i4.12951

Abstract:
Introdução: A pandemia COVID-19 veio comprometer o acompanhamento periódico dos doentes hipertensos em diversos aspetos. Este cenário fez com que se privilegiassem estratégias de telessaúde, como as plataformas mHealth, que constituem vias alternativas de promoção da autogestão destes doentes. Porém, não existe informação significativa que comprove o seu nível de efetividade. O objetivo deste estudo foi realizar uma revisão sistemática baseada na evidência sobre o papel de plataformas através do telemóvel ou smartphone na adesão de indivíduos com hipertensão ao plano terapêutico proposto. Métodos: Os artigos desta revisão foram obtidos através da pesquisa bibliográfica em diferentes plataformas científicas, aplicando-se os termos MeSH mobile, phone, hypertension e adherence. Foram incluídos estudos segundo os critérios definidos pelo modelo PICOS: (P) indivíduos adultos com diagnóstico de hipertensão arterial, a realizar pelo menos um fármaco anti-hipertensor; (I) plano terapêutico reforçado com recurso ao telemóvel, telefone fixo ou smartphone; (C) standard care; (O) alterações na adesão terapêutica; (S) revisões sistemáticas e ensaios clínicos aleatorizados controlados. Foi utilizada a escala Strength of Recommendation Taxonomy, da American Academy of Family Physicians, para avaliação dos níveis de evidência e atribuição de forças de recomendação. Resultados: Dos 729 artigos iniciais foram apenas incluídos sete estudos para a realização desta revisão: uma revisão sistemática e seis ensaios clínicos aleatorizados controlados. Apesar dos estudos relatarem resultados algo heterogéneos e inconsistentes, na generalidade apresentam resultados estatisticamente significativos no sentido do aumento de adesão terapêutica. No entanto, o risco de viés foi relativamente alto. Conclusões: A evidência atual é de qualidade moderada, algo inconsistente e de difícil generalização, apesar de favorável à efetividade destas plataformas na adesão terapêutica em doentes hipertensos (força de recomendação B). Existe necessidade de maior uniformização e adaptabilidade nos métodos de avaliação da adesão à terapêutica para aumentar a comparabilidade entre estudos e analisar a evolução e tendências numa determinada população.
Héloïse Lucaccioni, Médico de Família, Cristina Costa, Mariana Perez Duque, Rita Sá Machado
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 366-372; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i4.12979

Abstract:
Os profissionais da saúde têm um maior risco de infeção por COVID-19 devido à sua exposição profissional. Até à data existem dados e provas limitadas sobre infeções por COVID-19 entre os profissionais da saúde em Portugal. Descrevemos as características dos profissionais da saúde notificados como casos confirmados de COVID-19 durante os primeiros meses da vigilância nacional em Portugal (janeiro-maio de 2020). Concluímos com recomendações para melhorar a vigilância da COVID-19 entre os profissionais de saúde.
Maria Beatriz Morgado, Médico de Família
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 314-328; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i4.12888

Abstract:
Objetivos: Estima-se que mais metade das mulheres com cancro da mama ou cancro ginecológico apresentem problemas sexuais. Contudo, apenas uma minoria recebe aconselhamento médico nesse âmbito. A presente revisão narrativa tem como objetivo descrever os principais problemas sexuais das mulheres com esta tipologia de neoplasias, bem como identificar estratégias de abordagem e tratamento dos mesmos. Métodos: Foi efetuada uma pesquisa da literatura na base de dados PubMed, utilizando os termos MeSH: Sexuality, Neoplasms, Female e Women. Foram utilizados livros e artigos datados entre 1998 e 2020. Resultados: O cancro da mama afeta a vida sexual desde o diagnóstico, associando-se a intenso sofrimento psicológico. A este acresce o impacto do tratamento. A cirurgia altera a autoimagem, sensibilidade mamária e mobilidade. A radioterapia condiciona alterações tecidulares. A quimioterapia apresenta efeitos psicológicos e físicos com impacto direto e indireto na sexualidade. A terapêutica hormonal condiciona atrofia urogenital e sintomas vasomotores. Por outro lado, também a maioria das mulheres com cancro ginecológico apresenta vários níveis de disfunção sexual secundários à terapêutica. Tratamentos mais recentes como a braquiterapia, técnicas de nerve-sparing modificadas e cirurgia reconstrutiva têm contribuído para uma diminuição da morbilidade associada ao tratamento. Verifica-se uma consciencialização crescente da importância da saúde sexual dos doentes oncológicos. Neste contexto, cabe ao médico abordar o assunto, informando as doentes acerca do possível impacto da doença e do respetivo tratamento na sexualidade. Existem questionários validados e modelos estruturados facilitadores de comunicação neste sentido. Cabe também aos clínicos o controlo dos sintomas de disfunção sexual associados à terapêutica oncológica, privilegiando sempre que possivel fármacos com impacto neutro ou positivo na sexualidade. Conclusão: Qualquer médico deve estar sensibilizado para a disfunção sexual associada à patologia oncológica e ao seu tratamento, sendo capaz de a rastrear e adaptar o plano terapêutico em conformidade, colocando em prática o cancer care continuum.
Luis Rebelo, Médico de Família
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 373-376; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i4.13106

Abstract:
A relação entre a diabetes e o tabagismo é há muito conhecida. Estima-se que um em cada cinco diabético seja fumador, acrescentando ao risco cardiovascular base da sua doença também este por definição evitável. Por outro lado, os fumadores têm também maior risco de vir a apresentar diabetes. É fundamental levar as pessoas com diabetes a não fumar ou se o fizerem a abandonar o hábito. Este grupo deve ser prioritário nos programas de cessação tabágica.
Valter Filipe Moreira, Médico de Família, Andreia Teles Ribeiro
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 357-361; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i4.13016

Abstract:
Introdução: O hipertiroidismo (HT) é uma patologia que ocorre devido à síntese e secreção excessiva de hormonas tiroideias pela glândula tiroideia, estimando-se que a sua prevalência a nível mundial se situa entre 1,2 e 1,6%. A principal etiologia do HT é a doença de Graves (DG), seguida do bócio multinodular (BMN) tóxico. As manifestações clínicas do HT podem variar, desde o quadro assintomático até ao quadro de tempestade tiroideia, uma situação rara de tirotoxicose aguda grave e potencialmente fatal. O síndroma de Marine Lenhart (SML) consiste num quadro de HT em contexto de coexistência de DG e BMN tóxico, sendo uma situação rara que ocorre em 0,8 a 2,7% dos pacientes com DG. Descrição do caso: Mulher de 50 anos, com antecedentes pessoais de BMN tóxico não medicado, recorre a consulta de doença aguda por quadro caracterizado por fraqueza extrema com impotência funcional para a marcha, insónia grave, labilidade emocional e irritabilidade associada a palpitações. Foi referenciada ao serviço de urgência (SU) onde foi diagnosticada com HT grave por DG, tendo ficado internada. Houve estabilização clínica e laboratorial com melhoria dos sintomas e teve alta com o provável diagnóstico de SML. Comentário: Este caso demonstra a importância da monitorização tiroideia e vigilância sintomática dos doentes com patologia tiroideia de base. O médico de família tem um papel fundamental no controlo destas situações por ter um acompanhamento longitudinal dos seus pacientes. Uma abordagem mais abrangente de cada doente e a articulação entre os cuidados de saúde primários e secundários permite a identificação de problemas clínicos específicos e tratamento precoce dos mesmos.
Adriana Gameiro, Victória Garrett
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 294-300; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i4.12891

Abstract:
Objetivos: Determinar a prevalência de baixo peso, peso normal, excesso de peso e obesidade na população em idade escolar numa Unidade de Saúde Familiar (USF) do concelho de Portalegre e determinar se existe diferença estatisticamente significativa entre o género e o peso e entre a idade e o peso. Tipo de estudo: Estudo observacional transversal, descritivo e analítico. Local: USF Portus Alacer, concelho de Portalegre. População: Utentes da USF Portus Alacer [6-17 anos]. Métodos: Determinação do índice de massa corporal (IMC) de 448 crianças e adolescentes [6-17 anos] vigiadas na USF Portus Alacer, entre janeiro de 2017 e outubro de 2018 [intervalo de confiança (IC) 95%, margem de erro 3,64%]. Os participantes foram classificados em quatro categorias de acordo com os pontos de corte de IMC estabelecidos pela OMS para a idade e género. O software usado no tratamento de dados foi o SPSS® v. 25.0, o Microsoft Office Excel® e o Sample Size Calculator by Raosoft®. As ferramentas estatísticas utilizadas foram o teste de Qui-quadrado e o teste do t-Student. A normalidade foi testada através do teste Kolmogorov-Smirnov. Resultados: Das crianças avaliadas 52,7% eram do sexo masculino. A mediana etária foi de 12 anos. Verificou-se uma prevalência de peso excessivo de 37,4%. A prevalência do excesso de peso foi de 16,7%, superior no sexo feminino, e a da obesidade foi de 10,7%, ligeiramente superior no sexo masculino. A maior prevalência de peso excessivo verificou-se aos sete anos. Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre o género e a categoria de peso, nem entre as idades relativamente ao peso excessivo. Conclusões: Apesar da diminuição da prevalência da obesidade infantil e excesso de peso verificada em Portugal nos últimos anos, estas entidades representam um grave problema de saúde pública. No concelho de Portalegre, a prevalência do peso excessivo nos menores de 10 anos foi superior aos dados disponíveis na literatura. Dos 10 aos 17 anos a prevalência foi inferior.
Hugo Ribeiro, Médico de Família, João Rocha-Neves, Carla Lopes-Mota, Manuel Teixeira-Veríssimo, Marília Dourado, José Andrade
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 233-241; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i3.12852

Abstract:
Objetivos: Sistematizar e contribuir para o melhor conhecimento das características farmacocinéticas e farmacodinâmicas dos medicamentos opioides disponíveis em Portugal para o tratamento da dor não oncológica e, desta forma, contribuir para a escolha mais informada e adaptada ao doente, o que permitirá potenciar a eficiência, reduzindo a incidência de efeitos adversos. Métodos: Realização de uma revisão narrativa da bibliografia sobre esta temática, utilizando os termos Medical Subject Headings (MeSH) Analgesics, Opioid e Pharmacology, Clinical. Foram também utilizados os resumos das características do medicamento de todos os opioides disponíveis em Portugal, assim como as características farmacocinéticas e farmacodinâmicas destes medicamentos registadas no DrugBank. Resultados: Selecionados 22 artigos para leitura, dos quais 14 são revisões da literatura, quatro manuais de referência e quatro normas de orientação clínica, para além da utilização das bases de dados do INFARMED e do Drugbank. No envelhecimento há uma diminuição de cerca de 50% da taxa de filtração glomerular dos 40 até aos 70 anos, obrigando a reduções de dose e cuidados especiais na utilização de fármacos eliminados por esta via, sendo que no caso dos opioides os únicos que não têm eliminação renal são a hidromorfona e a buprenorfina. São igualmente mais frequentes a obesidade central e o aumento da α1-glicoproteína ácida, aumentando o volume de distribuição de fármacos lipossolúveis e de bases, como são os opioides, sendo que os únicos que não são lipossolúveis são a morfina e a hidromorfona. Relativamente ao metabolismo, para além de ocorrer uma diminuição do metabolismo de fase 1, a polifarmácia nos idosos é mais frequente, pelo que poderão ser preferencialmente escolhidos os opioides com metabolismo de fase 2, como o tapentadol, a hidromorfona e a morfina. Conclusões: O reconhecimento das características individuais de cada doente idoso, associado ao conhecimento da farmacologia básica de cada opioide disponível em Portugal, poderá garantir maior segurança e salvaguardar uma maior adesão à terapêutica.
António Duarte-De-Araújo, Médico de Família, Miguel Guimarães, Pedro Teixeira, Venceslau Hespanhol, Jaime Correia-De-Sousa
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 272-276; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i3.12780

Abstract:
Randomized controlled trials together with systematic reviews and meta-analyses have been the cornerstone of clinical research. Some studies, because of the size of the sample, the use of randomization and well-defined measurements, the participation of multiple institutions, or long-term follow-up, are able to give a significant level of evidence. We chronologically describe and comment on a group of trials on chronic obstructive pulmonary disease (COPD) that have significantly influenced the scientific and medical community in understanding and managing the disease in the first years of the XXI century. They contributed to the different versions of the GOLD strategy.
Rui Jf Silva, Médico de Família, Nuno Teles Pinto
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 223-229; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i3.12820

Abstract:
Objectives: Gastroesophageal reflux disease is one of the most common gastrointestinal diagnoses. This disorder causes many symptoms and may induce the development of Barret’s esophagus and esophageal adenocarcinoma. Proton pump inhibitors are the most used treatment and, usually, are prescribed for once-daily dosing before breakfast. However, many patients describe night-time symptoms, a period when an increase of basal gastric acid secretion occurs. Therefore, this evidence-based review was performed in order to understand which is the best regimen for proton pump inhibitor intake. Methods: The MeSH words ‘proton pump inhibitors’, ‘gastro-oesophageal reflux’, GERD, and pH were chosen to search for synopses, guidelines, meta-analysis, systematic reviews, and original papers, published after 2008 in the databases MEDLINE, National Guideline Clearinghouse, NHS Evidence, Canadian Medical Association, TRIP Database, The Cochrane Library, DARE and Bandolier in English, French, Spanish and Portuguese. A search in the Índex de Revistas Médicas Portuguesas with the words “inibidores das bombas de protões”, “refluxo gastroesofágico”, DRGE, and pH was also performed. The search retrieves 2,546 articles, from those, three were used in this review. Results: Three prospective studies that evaluate the effects of dosage and/or timing of proton pump inhibitors intake in gastric pH were obtained. These studies indicate that, in patients with predominant night-time symptoms, intake before dinner achieves better results than before breakfast. Additionally, doubling the dose reduces symptoms and the time of pH lower than four. Conclusion: Symptom timing and patient compliance are crucial when choosing the therapeutic regimen. The timing of proton pumps inhibitors intake should be associated with the symptom’s timing; C-level of recommendation.
Filipa Sofia Silva, Médico de Família, Pedro Carreira, Sónia Serra
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 243-247; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i3.12802

Abstract:
Introdução: O eritema nodoso consiste numa erupção cutânea eritematosa aguda, do tipo nodular, que habitualmente se encontra limitada à face anterior das pernas. As principais causas são as infeções estreptocócicas nas crianças e as infeções estreptocócicas e a sarcoidose nos adultos. Descrição do caso: Os autores apresentam o caso de uma mulher de 33 anos, encaminhada a partir do serviço de urgência por poliartralgias com uma semana de evolução, às quais se associou o aparecimento de nódulos eritematosos dolorosos nos membros inferiores, sugestivos de eritema nodoso. Descreve-se todo o estudo e acompanhamento realizado em consulta de medicina interna, com identificação da etiologia, a toma de desogestrel com exclusão de outras etiologias possíveis. Comentário: O quadro clínico teve uma evolução favorável, com resolução completa dos sintomas e das lesões cutâneas, após esclarecimento etiológico e abordagem terapêutica em conformidade.
Mara Lisa Borges Arruda, Daniela Pacheco, Joana Meneses, Maria Rita Mota, Rita Santa Comba
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 249-255; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i3.12842

Abstract:
Introdução: A doença mão-pé-boca (DMPB) é uma infeção aguda autolimitada, altamente contagiosa, de etiologia vírica, que ocorre sobretudo em crianças. O quadro clínico típico caracteriza-se pelo aparecimento de um enantema oral doloroso, seguido de lesões cutâneas nas palmas das mãos e plantas dos pés, de morfologia, tamanho e cor variáveis.O seu diagnóstico é sobretudo clínico, o tratamento sintomático e o prognóstico é, na maioria dos casos, favorável. O objetivo deste artigo é relatar um caso de DMPB num indivíduo adulto, alertando para a possibilidade deste diagnóstico nesta faixa etária. Descrição do caso: Apresenta-se o caso de um homem de 35 anos, com antecedentes de obesidade, rinite alérgica e história de varicela na infância, que recorreu à sua médica de família por pápulas pruriginosas nas palmas das mãos bilateralmente, associadas a odinofagia ligeira. Referia também ter estado em casa a cuidar do filho de 15 meses, com diagnóstico de DMPB, há cerca de sete dias. Assumiu-se o diagnóstico clínico de DMPB e foi tratado de forma sintomática. Dois dias depois regressou por extensão do exantema às plantas dos pés e à região perioral, tendo sido mantidos os cuidados. Na reavaliação, uma semana depois, apresentava descamação da pele das palmas das mãos e plantas dos pés e onicomadese das unhas das mãos e dos pés, sem surgimento de novas lesões. Considerou-se o quadro clínico em resolução e foram explicadas medidas de suporte e prevenção de contágio e recorrência. Comentário: A DMPB ocorre de forma esporádica em adultos. Nesta faixa etária, a doença acomete mais frequentemente indivíduos do sexo masculino e a atopia é considerada um fator de risco.O curso da doença é maioritariamente autolimitado, com resolução em sete a dez dias, sendo suficiente o tratamento de suporte.Apesar de raras, em determinadas populações as complicações associadas à DMPB podem condicionar risco de vida, o que juntamente com a sua elevada contagiosidade implica uma atitude clínica atenta e um diagnóstico precoce para prevenção da sua disseminação. Assim, perante um doente adulto que apresente início abrupto de exantema maculopapular das palmas das mãos e plantas dos pés, o diagnóstico de DPMB deve ser considerado.
Joana Gonçalo Meireles Pinto, Médico de Família
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 277-281; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i3.12889

Abstract:
Ainda que presente em todas as especialidades médicas, a prestação de cuidados de saúde centrados no doente traduz uma das seis competências nucleares da disciplina de medicina geral e familiar. Esta competência implica desenvolver e aplicar uma técnica de consulta que promova o estabelecimento de uma relação médico-doente efetiva, com respeito pela autonomia e circunstâncias dos utentes. Atualmente são várias as pressões externas presentes na prática clínica de um médico de família, sendo as consultas de dez minutos apenas um exemplo. Com este artigo pretende-se refletir sobre o possível impacto que as consultas de dez minutos poderão ter na relação médico-doente, nos profissionais, mas também na segurança dos atos médicos prestados.
Cristiana Miguel, Médico de Família, Álvaro José Silva, Tânia Jordão, Alexandra Marujo, João Paulo Simões
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 282-283; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i3.13226

Abstract:
Rastreio do cancro do cólon e reto oportunístico na vacinação contra a COVID-19
Paula Broeiro, Médico de Família
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 201-203; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i3.13261

Abstract:
Quanto à contratualização, por um lado, os reguladores deverão diminuir a sobrestimação do desempenho, dos serviços de saúde e dos seus profissionais nos resultados em saúde. Por outro lado, os próprios profissionais deverão aceitar o limite da sua intervenção e recentrar o modelo de contratualização em indicadores centrados na pessoa, com impacto na saúde, como o acesso e a qualidade de cuidados. A contratualização deverá, ainda, refletir o modelo biopsicossocial próprio dos CSP e espelhar a complexidade da realidade, sendo necessário que o IDG seja adequadamente ponderado/corrigido de acordo com o contexto. O grande salto qualitativo do IDG está, portanto, na capacidade de aumentar a sua «tolerabilidade» aos momentos do ciclo de vida da organização (e.g., ausência de profissionais) e adequar à especificidade da população, incluindo dimensões socioeconómicas (e.g., multiculturalidade, insuficiência económica).
Luiz Miguel Santiago, Médico de Família, José Miguel Paiva
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 205-212; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i3.12790

Abstract:
Introdução: O carcinoma colorretal (CCR) é a terceira neoplasia com maior incidência no mundo e a que mais vezes é diagnosticada em Portugal. A sua incidência pode ser controlada através de programas de rastreio. A plataforma BI-CSP congrega informação diversa relativa à atividade clínica nos cuidados de saúde primários em Portugal. O presente trabalho teve como objetivo verificar a relação entre a proporção de utentes com idade entre 50-75 anos com rastreio de cancro colorretal efetuado e a proporção de utentes com novo diagnóstico e a sua prevalência de cancro do cólon e reto em Portugal nos anos de 2017 e 2018, com base no BI-CSP pelo total nacional por região e por ACeS selecionados para ser percebida a distribuição dos valores da região com os ACeS selecionados. Materiais e Métodos: Foi consultada a matriz de indicadores do BI-CSP, sendo selecionados os indicadores 2013.046.01 FL, MORB.245.01 FL e MORB.217.01 FL. Para cada um deles estudaram-se os anos de 2017 e 2018 à data de 31 de dezembro, colhendo-se dados por total nacional, por Administração Regional de Saúde e, nestas, por Agrupamento de Centros de Saúde. Resultados: A proporção de utentes elegíveis rastreados aumentou de 47,01% para 50,90%, de 2017 para 2018. Identificou-se, para o ano de 2017, diferença estatisticamente significativa (p<0,001) na análise por região. A incidência de cancro colorretal reduziu 0,02% entre os anos em estudo, tendo a prevalência aumentado 0,03%. Discussão: Proporção de utentes rastreados, incidência e prevalência estarão na dependência de múltiplos fatores. Na ausência de mais dados salienta-se a existência de plataforma agregadora. Conclusão: O aumento da proporção de indivíduos rastreados fica ainda aquém do desejável. Deverá prosseguir o desenvolvimento de trabalho de contínua monitorização dos resultados disponíveis.
Diana Reis Monteiro, Médico de Família, Sofia Fernandes
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 257-263; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i3.12845

Abstract:
Introdução: O exantema em idade pediátrica representa frequentemente um desafio na prática clínica diária, na medida em que pode estar enquadrado numa grande variedade de patologias, com atingimento cutâneo isolado ou sistémico, incluindo patologias benignas e autolimitadas e situações de maior gravidade que podem requerer uma atitude mais interventiva. Os autores relatam um caso de urticária multiforme, com o objetivo de recordar os aspetos semiológicos característicos desta patologia, o seu caráter benigno, os diagnósticos diferenciais a considerar e a terapêutica a instituir. Descrição do caso: Lactente de onze meses, do sexo masculino, sem antecedentes patológicos de relevo, trazido ao serviço de urgência por exantema evanescente e edema periférico com cerca de 24 horas de evolução, sem febre ou outras queixas associadas. Tinha terminado amoxicilina com ácido clavulânico por otite média aguda dois dias antes da vinda. Ao exame físico destacava-se um exantema maculopapular, com lesões anulares, policíclicas, de halo eritematoso e centro claro, disperso pela face, tronco e membros, pruriginoso, associado a edema ligeiro das mãos, pés e face, sem petéquias, sem atingimento das mucosas nem outras alterações relevantes. Não se considerou necessária a realização de exames complementares, tendo tido alta com diagnóstico de urticária multiforme em contexto pós-infecioso/pós-farmacológico, medicado com anti-histamínico e corticoide por via oral. Verificou-se resolução completa das lesões cerca de 48 horas depois. Comentário: A urticária multiforme é uma patologia benigna e autolimitada que surge sobretudo em idade pediátrica, caracterizada pelo aparecimento de exantema maculopapular eritematoso, com lesões anulares e policíclicas, evanescente, facilmente confundível com outras patologias mais graves. Inicialmente pode assemelhar-se a eritema multiforme, doença do soro-like, vasculite urticariforme e edema hemorrágico da infância; no entanto, estas entidades representam patologias distintas, com abordagens e prognósticos diferentes, sendo extremamente importante a distinção clínica entre as mesmas.
Raquel Lobo Cardoso, Médico de Família, Diana Rodrigues Pacheco
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 265-270; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i3.12892

Abstract:
Introdução: A nevralgia do pudendo define-se como uma dor ao longo do dermátomo do nervo pudendo e pode ocorrer em ambos os sexos. Sendo uma patologia capaz de mimetizar muitas outras condições orgânicas, o seu diagnóstico surge geralmente após meses de sintomatologia. O presente relato de caso pretende enfatizar uma patologia rara, alguns dos seus aspetos clínicos e critérios de diagnóstico, demonstrando um exemplo de como o atraso no diagnóstico pode conduzir a um excessivo gasto de recursos em saúde, bem como a um sofrimento físico e psicológico significativos. Descrição do caso: Utente do sexo feminino, de 73 anos, recorre à consulta aberta da Unidade de Saúde Familiar (USF), em agosto 2016, por queixas de ardência vulvar e desconforto na região suprapúbica com três semanas de evolução. Realizou antibioterapia empírica, sem melhoria da sintomatologia. Por manutenção das queixas recorre a várias consultas de medicina geral e familiar na USF e a várias especialidades em regime público e privado, sendo medicada com vários antibióticos, antifúngicos, corticoides, entre outros. Foram realizados vários exames auxiliares de diagnóstico e levantadas inúmeras hipóteses diagnósticas até que, mais de um ano desde o surgimento dos primeiros sintomas, se chega ao diagnóstico mais provável de nevralgia do pudendo. Apesar do diagnóstico, a doente continuou com a dor mal controlada, tendo mesmo de recorrer às opções de último recurso para o tratamento desta patologia. Comentário: A nevralgia do pudendo é uma patologia cujo diagnóstico se alcança habitualmente após muito tempo do início da sintomatologia do doente, com muito sofrimento físico e psicológico associado. Por este motivo, o relato de caso apresentado pretende sensibilizar o profissional de saúde para este diagnóstico e para a importância do médico de família enquanto elemento integrador dos cuidados do doente.
Ana Catarina Fortunato Silva, Médico de Família, Hernâni Pombas Caniço, Susana Rosa Lopes, Margarida Silvestre
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 214-221; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i3.12693

Abstract:
Introduction: Principlism, from Tom Beauchamp and James Childress, is the most widely accepted theory in biomedical ethics. It is based on four principles: Beneficence, Non-maleficence, Autonomy and Justice. These are part of a common moral serving general action guides to any clinician, including the Family Doctor. The main purposes of this review are to describe how Principlism can be applied to daily general practice and reflect about how bioethics’ principles can improve the Physician Patient Relationship. Methods: We developed an integrative literature review, including conventions, declarations, treaties, text books and scientific research articles. Three medical databases were selected to search through the medical literature with specific inclusion criteria. From a total of 2352 potential articles, 161 were read and 21 were included in this review. The results were grouped into four categories: Family Medicine and the physician-patient relationship; Respect for autonomy; Non-maleficence and beneficence; and Justice. Results: Family Doctors play their professional role by promoting health, preventing disease and providing cure, care, or palliation. This area may be faced with ethical dilemmas including the moment of obtaining informed consent, medical confidentiality, diseases prevention and also the choice of complementary diagnostic tests and therapeutics. All these moral dilemmas arise in the context of a single interpersonal relationship, which is possibly the most therapeutic aspect of the medical consultation. Conclusions: Despite all the technological innovation, moral conduct and principles governing the profession of Family Doctors remains faithful to the principles of the FM specialty. In a context of a dehumanization threat and global discontent, it is essential to foster a growing humanization of primary health care and recover ethical values, in order to achieve an optimization of physician-patient relationship, to deepen the level of understanding of "patient's needs and values" and finally to meet their expectations.
Inês Laplanche Coelho, Médico de Família
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 190-194; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.12702

Abstract:
O impacto das alterações climáticas já se faz sentir na saúde dos nossos doentes e esta emergência de saúde pública pode vir a pôr em causa a estabilidade do nosso sistema de saúde. As mudanças no clima afetam praticamente todos os órgãos e sistemas, contribuindo para o aumento da incidência e prevalência de diversas patologias. Como médicos de família podemos assumir um papel ativo na mitigação e adaptação às consequências das alterações climáticas na saúde dos nossos doentes, no nosso sistema de saúde e na saúde do nosso planeta através da alteração dos nossos hábitos nas unidades de saúde, da promoção de mudanças de comportamentos e da consciencialização da comunidade em geral para este problema. Somos provavelmente a última geração a poder travar as alterações climáticas e, por isso, temos o dever de agir.
Nuno Teles Pinto, Médico de Família, João Soares Teles, Vânia Ferreira Fernandes, Maria João Serra
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 122-131; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.12763

Abstract:
Introdução: A síndroma do túnel cárpico (STC) é causada pela compressão do nervo mediano no seu trajeto através do túnel cárpico e é a neuropatia mais frequente do membro superior. Objetivo: Rever e analisar a evidência atual sobre a eficácia dos corticoides orais no alívio dos sintomas em pacientes com síndroma do túnel cárpico. Material e métodos: Pesquisa de guidelines (GL), ensaios clínicos aleatorizados e controlados (ECA), revisões sistemáticas (RS) e meta-análises (MA), publicadas entre 2009 e 2019, nas bases de dados e sítios de medicina baseada na evidência da PubMed, da Cochrane Library, DARE, Bandolier, TRIP Database, BMJ Evidence-Based Medicine, National Guideline Clearinghouse, NICE, Canadian Medical Association Practice Guidelines Infobase e Primary Care Clinical Practice Guidelines, utilizando-se os descritores MeSH: ‘carpal tunnel syndrome’ e ‘corticosteroids’. Foi aplicada a escala Strength of Recommendation Taxonomy (SORT), da American Academy of Family Physicians, para atribuição dos níveis de evidência (NE) e das forças de recomendação (FR). Resultados: Dos 172 artigos devolvidos da pesquisa efetuada foram selecionados seis: um ECA, quatro RS e uma norma de orientação clínica (NOC). A eficácia dos corticoides orais a curto-médio prazo no alívio sintomático da STC é evidenciada por vários ECA e RS metodologicamente bem concebidos. Na maioria dos estudos a administração oral de 20mg de prednisolona por duas semanas conduz ao alívio temporário dos sintomas. Conclusões: A corticoterapia oral pode ser usada no alívio temporário dos sintomas do STC a curto prazo, num regime de 20mg diários de prednisolona durante duas semanas (SORT A). O seu uso no tratamento a médio e a longo prazo apresenta um nível de evidência mais baixo (SORT B).
Cláudia Raínho, Médico de Família, Ana Margarida Adão, Inês Teles, Margarida Neto
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 163-169; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.12296

Abstract:
Introdução: A crescente incidência de diabetes mellitus tipo 2 (DM2) em idade pediátrica é uma realidade. O rastreio recomenda-se perante fatores de risco, sendo comuns ao adulto os critérios diagnósticos. Nesta idade o tratamento visa o controlo glicémico e de fatores de risco associados, sem comprometer o desenvolvimento, e também a prevenção de comorbilidades e complicações. Este caso clínico pretende destacar a abordagem holística precoce e o envolvimento familiar na abordagem da DM2 neste grupo etário. Descrição do caso: Adolescente, sexo masculino, 12 anos, hispânico, com antecedentes pessoais de obesidade, alimentação desequilibrada e história familiar de obesidade e DM2, recorreu à consulta por glicemia capilar ocasional elevada, referindo polidipsia. Apresentava glicemia em jejum 160mg/dl e HbA1C 9,6%. Foi referenciado à especialidade de endocrinologia e, após estudo, iniciou alterações de estilo de vida e terapêutica farmacológica com metformina. Atualmente, após quatro anos, apresenta-se normoponderal, com HbA1C < 6%, apenas sob terapêutica não farmacológica. Comentário: A abordagem desta patologia em idades jovens exige um trabalho conjunto de autoridades políticas, rede escolar e cuidados de saúde para uma promoção de estilos de vida saudáveis e combate ativo à obesidade infantil, procurando envolver e responsabilizar os cidadãos. Os profissionais de saúde devem estabelecer precocemente o diagnóstico e terapêutica para evitar complicações, sendo essenciais as mudanças de estilo de vida e o envolvimento familiar.
Rita Carvalho Cunha Ferreira, Médico de Família, Manuel Luís Capelas
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 90-98; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.12727

Abstract:
Introdução: A importância do local de morte tem sido estudada e valorizada em cuidados paliativos. Em Portugal parece que a maioria dos doentes prefere morrer no domicílio, embora a sua preferência não seja satisfeita. Objetivos: Identificar fatores associados à satisfação da preferência de morte no domicílio entre doentes acompanhados em cuidados paliativos em Portugal. Métodos: Estudo epidemiológico, observacional, transversal e analítico, em doentes acompanhados durante 2017 nas equipas de cuidados paliativos que responderam a um estudo de maiores dimensões do Observatório Português de Cuidados Paliativos. Foram selecionadas variáveis independentes de caracterização demográfica, social, clínica e de cuidados de saúde. Para análise bivariada foram utilizados os testes χ2, Mann-Whitney e modelo de regressão logística binária. Para análise multivariada foi utilizado o modelo de regressão logística com base no método Forward, baseado no teste de Wald. Resultados: Obtivemos uma taxa de resposta das instituições de 9,8%, com inclusão de 68 doentes, dos quais 52,9% do género masculino e com mediana de 78,5 anos (ampIIQ=19). A satisfação da preferência de morte no domicílio verificou-se em 32,3% (k=0,26) e associou-se de forma estatisticamente significativa a alguns fatores, nomeadamente à residência nos Açores (OR=3,79), à residência numa área rural (OR=10,00), à duração do seguimento desde a admissão numa equipa até à morte (≤ 30 dias, OR=0,15) e ao facto de o doente ser acompanhado por uma equipa comunitária de suporte em cuidados paliativos (OR=9,00). Conclusões: O valor de satisfação da preferência de morte no domicílio obtido foi apenas razoável, encontrando-se entre os valores mais baixos da literatura. Foi identificada uma relação com o local de residência, o tempo de seguimento em cuidados paliativos e o acompanhamento por equipas comunitárias especializadas. Estes fatores facilitadores vão ao encontro dos achados em estudos internacionais e poderão orientar a definição de estratégias adequadas à realidade da população portuguesa.
Margarida Aroso, Médico de Família, Pedro Seabra
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 109-118; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.12929

Abstract:
Objetivos: Caracterizar as expectativas dos utentes face à consulta de medicina geral e familiar (MGF) e analisar se existe relação entre o cumprimento das expectativas do utente e as características sociodemográficas, com a satisfação no final da consulta. Métodos: Consistiu num estudo observacional transversal, realizado numa Unidade de Saúde Familiar (USF) durante quatro semanas. Os utentes que se dirigiam a uma consulta programada eram questionados sobre o interesse em responder a um inquérito anónimo. A primeira página, lida e preenchida antes da consulta, consistiu em dados sociodemográficos (idade, género, escolaridade), número de consultas que teve na USF no último ano e expectativas presentes antes da consulta. A segunda página, respondida após a consulta, consistiu num questionário para analisar as expectativas cumpridas na consulta e outro para avaliar a satisfação com os cuidados médicos. Resultados: Obtiveram-se 65 inquéritos válidos. Verificou-se que a expectativa mais frequente antes da consulta consistia em receber informação sobre os resultados dos exames auxiliares de diagnóstico e a expectativa mais cumprida foi a explicação sobre o tratamento. Quanto ao grau de satisfação no final da consulta, a média de satisfação foi de 4,2 em 5 pontos. Verificou-se que os utentes estavam mais satisfeitos com o grau de confidencialidade e a forma como o médico o/a ouviu. Observou-se maior grau de satisfação em utentes com grau de escolaridade superior, com maior número de expectativas cumpridas e com maior número de ações realizadas e que não eram expectativas que o doente levava para a consulta. Conclusões: É importante identificar as expectativas que os doentes levam para a consulta, pois os utentes que reportam elevado número de expectativas cumpridas têm um elevado nível de satisfação, o qual pode ser atualmente considerado como um importante indicador da qualidade de saúde.
Cátia Alexandra Granja Ferreira, Médico de Família, Filipa Inês de Sousa Vela Cunha
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 100-107; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.12819

Abstract:
Objetivo: Avaliar e descrever os conhecimentos e hábitos de proteção solar em idade pediátrica. Tipo de estudo: Estudo observacional transversal analítico. Local: Consulta externa e serviço de urgência de pediatria de um hospital nível II e consulta de saúde infantil de uma Unidade de Saúde Familiar (USF) local. População: Crianças com idade inferior a 18 anos e respetivos acompanhantes que frequentaram as unidades referidas. Métodos: Aplicação de um questionário sobre conhecimentos e hábitos sobre proteção solar de resposta voluntária e confidencial. O tratamento estatístico dos dados foi realizado através do programa Statistical Package for the Social Sciences – SPSS®. Considerou-se existir significância estatística para valores de p<0,05. Resultados: Amostra de 295 questionários, 63,7% respondidos por cuidadores de crianças com idade inferior a nove anos e 36,3% por adolescentes entre os 10 e os 17 anos. O período do dia de maior exposição solar foi antes das 11 horas e após as 16 horas (77%). Usam protetor solar 93% dos adolescentes e 90,6% das crianças; no entanto, a maioria da população usa-o apenas na praia (61%) (p<0,05). Quanto à frequência de renovação de protetor solar, 40,2% dos adolescentes renovam duas vezes e 52,6% das crianças apenas uma vez (p<0,05). É o sexo feminino que usa mais o guarda-sol (76,2%) (p<0,05) e que utiliza fator de proteção solar (FPS) 30 (59%) e 50+ (73,7%), enquanto mais rapazes utilizam o FPS <15 (76,9%) (p<0,05). Os questionados referiram obter mais informação sobre proteção solar através da comunicação social (46,8%). Discussão/Conclusão: Este estudo demonstrou hábitos inadequados de proteção solar, resultados concordantes com outros estudos. Alerta-se para a necessidade de divulgação mais ampla de conhecimentos adequados que consolide práticas saudáveis em relação à exposição solar. A multidisciplinaridade entre os cuidados de saúde primários e a pediatria torna-se fulcral.
Maria Inês Silva, Médico de Família, Joana Pinto, Manuel Viana
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 174-177; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.12823

Abstract:
Introdução: As manifestações osteoarticulares da tuberculose são a terceira apresentação mais frequente da tuberculose extrapulmonar, sendo o esqueleto axial o local mais afetado, o que se designa por espondilodiscite tuberculosa ou Mal de Pott. Apresenta-se um caso clínico que pretende alertar para este diagnóstico, pouco frequente nos cuidados de saúde primários, cuja clínica inespecífica e insidiosa pode dificultar e atrasar o diagnóstico e o tratamento. Descrição do caso: Homem, 82 anos, nacionalidade portuguesa, com antecedentes pessoais de hipertensão arterial medicada e controlada. Sem outros antecedentes pessoais de relevo, nomeadamente infeção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH) ou imunossupressão. Desconhece antecedentes pessoais de tuberculose ou contactos de risco. Recorre à consulta aberta da sua Unidade de Saúde Familiar por dor na região dorsal e no hemitórax esquerdo com cerca de quatro meses de evolução, com uma intensidade de 6 em 10, sem irradiação, com alívio parcial com medicação analgésica e anti-inflamatória e agravamento com os movimentos. Sem história de traumatismo. Nega sintomatologia respiratória, neurológica e outros sintomas constitucionais gerais. O exame objetivo não evidenciou alterações à observação da coluna dorsal, nomeadamente sinais inflamatórios locais ou deformação visível da coluna, nem dor à palpação e nem alterações da sensibilidade ou força muscular. Realizou radiografia da coluna dorsal e radiografia do tórax que não revelaram alterações significativas. Dada a evolução temporal optou-se por realizar tomografia computorizada da coluna dorsal que revelou alterações fortemente sugestivas de um processo de espondilodiscite. O doente foi referenciado para o serviço de urgência hospitalar, onde foi proposto internamento para estudo e orientação, do qual se realça biópsia óssea positiva para polymerase chain reaction (PCR) de bacilo de Koch. Foi assumido o diagnóstico de Mal de Pott, tendo o doente iniciado tratamento com anti-bacilares. Comentário: O Mal de Pott tem como sintoma mais comum a dor localizada, com agravamento progressivo ao longo de semanas ou meses, ou seja, uma clínica pouco específica e insidiosa, o que contribui para o atraso no diagnóstico. Podem existir sintomas constitucionais, como perda de peso ou febre, embora estes estejam presentes em menos de metade dos casos. Os métodos de imagem são importantes para o diagnóstico, nomeadamente a tomografia computorizada e a ressonância magnética, sendo a radiografia da coluna pouco sensível, particularmente na fase inicial. Após o diagnóstico, o tratamento deve ser instituído de forma célere com o fim de melhorar o prognóstico. O médico de família tem um papel importante quer na suspeita diagnóstica desta patologia, permitindo o diagnóstico e tratamento atempados, quer no seu seguimento, apoiando a adesão ao tratamento e a gestão das complicações da doença.
Ana Aires, Médico de Família, Cátia Almeida Oliveira
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 178-186; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.12947

Abstract:
No final do ano de 2019 surgiram na China os primeiros casos de uma infeção respiratória provocada por um vírus que viria a designar-se SARS-CoV-2 pela homologia com o coronavírus da síndroma respiratória aguda grave (SARS-CoV). A patologia causada pelo mesmo seria nomeada de COVID-19 (“COronaVirus Disease identified in 2019”), sendo que cerca de 80% dos doentes infetados apenas apresentava sintomatologia ligeira. No entanto, pela sua infecciosidade, a doença rapidamente se disseminou por todos os continentes, apresentando uma mortalidade global de 5%. Desta forma, dado o aumento exponencial do número de doentes com COVID-19 por todo o mundo, em março de 2020 foi decretado o nível de pandemia, altura em que Portugal registou os primeiros casos. Pela imprevisibilidade e infecciosidade da doença, as autoridades políticas e de saúde do País foram obrigadas a implementar diversas medidas, tendo-se decretado inclusivamente uma cerca sanitária em Ovar após constatar-se a presença de transmissão comunitária ativa. O presente relato de prática pretende refletir sobre o exercício da atividade clínica em período de pandemia por COVID-19. Trata-se de um relato de duas internas de medicina geral e familiar de uma Unidade de Saúde Familiar da zona de Ovar, com o intuito de, de algum modo, plasmar aquilo que terá sido a sua atividade assistencial neste período, em que a maioria dos contactos com utentes ocorreram de forma indireta. Com esta publicação pretende-se pensar sobre as dificuldades sentidas e o esforço realizado pela equipa de profissionais de saúde, à semelhança de tantas outras unidades de saúde de Portugal, com o objetivo de promover a manutenção da saúde, prevenção e gestão da doença de uma comunidade, em que os problemas, relativos ou não ao COVID-19, tivessem todos lugar num momento onde a pandemia era aparentemente a prioridade.
Nuno Jacinto, Médico de Família
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 87-88; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.13212

Joana Oliveira, Médico de Família
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 187-189; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.12592

Abstract:
O médico de família tem um papel fulcral na promoção da saúde e prevenção da doença pelo seu contacto mais próximo com o utente, família e comunidade. Este deve incentivar a prática de estilos de vida saudáveis em todos os seus contactos com o utente e diagnosticar precocemente situações de doença, no contexto de sinais e sintomas sugestivos. Para além disso, existem rastreios que podem ser aplicados. Por outro lado, existem cada vez mais dúvidas acerca do benefício de realizar check-ups a toda a população, procurar e tratar incessantemente fatores de risco dos indivíduos, havendo cada vez mais evidência da inexistência de benefícios na morbimortalidade e do crescente risco das intervenções efetuadas.
Mariana Baltazar Coelho, Médico de Família, Manuel Branco Ferreira
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 146-157; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.12847

Abstract:
Introdução: Os doentes asmáticos têm por vezes outras patologias concomitantes para as quais é necessário o uso de beta-bloqueantes. Tendo em conta que a terapêutica com estes fármacos é transversal a diversas doenças e sendo fármacos bastante usados na prática clínica, particularmente nas consultas de cuidados de saúde primários, torna-se importante esclarecer possíveis contraindicações ao seu uso nos indivíduos com asma. Objetivo: Avaliar os efeitos que a administração de beta-bloqueantes cardioseletivos e não seletivos podem ter em doentes asmáticos no que diz respeito a: alterações nas provas de função respiratória; exacerbações agudas da doença e sua sintomatologia associada; frequência de uso de medicação de alívio; necessidade de recorrer a um serviço de urgência e frequência de internamentos relacionados com efeitos adversos da toma do fármaco. Métodos: Foi realizada uma revisão sistemática da literatura, tendo sido utilizada a base de dados eletrónica PubMed. A expressão de busca utilizada foi: asthma AND beta-blockers. Resultados: A pesquisa inicial levou à obtenção de uma amostra de 151 artigos, dos quais 49 foram selecionados pela leitura do título e resumo. Destes, depois da leitura integral e da aplicação dos critérios de inclusão, foram escolhidos 30 artigos. O atenolol e o propranolol foram os beta-bloqueantes mais estudados. Dois ensaios clínicos randomizados e um coorte abordaram beta-bloqueantes oculares tópicos; 22 ensaios clínicos randomizados e cinco coortes estudaram beta-bloqueantes orais ou IV. Conclusões: Os doentes com asma ligeira a moderada poderão, se indicado, pela existência de outras patologias, ser medicados com beta-bloqueante, sempre com vigilância apertada do doente, especialmente nas fases iniciais desta terapêutica. Não se verificou que os beta-bloqueantes cardioseletivos sejam claramente mais seguros que os não seletivos, pelo que terão de ter os mesmos cuidados na sua utilização em asmáticos. Os beta-bloqueantes tópicos oculares podem ter efeitos prejudiciais nos asmáticos, reduzindo o FEV1 e causando exacerbações de asma. Ainda não existem dados suficientes para recomendar o uso de beta-bloqueantes para o tratamento da asma.
Cátia Alves, Médico de Família, Ana Margarida Romeira, Raquel Ferreira, Teresa Almeida, Paula Leiria-Pinto
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 159-162; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.12071

Abstract:
Introdução: O episódio hipotónico-hiporresponsivo (EHH) pós-vacinação caracteriza-se pela súbita diminuição do tónus muscular, hiporresponsividade e alteração da coloração cutânea (palidez ou cianose), com início imediato ou até 48 horas pós-imunização e em que não é identificável outra causa. Descrição do caso: Descreve-se o caso clínico de uma lactente referenciada à consulta por suspeita de anafilaxia após vacinação e em que a investigação imunoalergológica permitiu excluir o diagnóstico, demonstrar a tolerância à vacina pentavalente e confirmar o EHH. Comentário: Este caso reforça a importância da referenciação destas crianças para a consulta de imunoalergologia para exclusão/confirmação de alergia às vacinas. O EHH é uma entidade rara, pouco descrita na literatura e que pode acometer qualquer criança que seja vacinada. Não deve ser contraindicação para futuras imunizações, sendo, no entanto, recomendável que a dose de vacina pós-episódio seja feita em ambiente hospitalar.
Alícia Raquel Rebelo, Médico de Família, Andreia Lopes, Catarina Magalhães, João Sarmento, Miguel Salgado
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 170-173; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.12749

Abstract:
Introdução: A síncope é um motivo frequente de preocupação em idade pediátrica. Apesar da sua etiologia ser maioritariamente benigna, é essencial excluir causas graves e potencialmente fatais que, embora raras, devem fazer parte do diagnóstico diferencial destas situações. Para isso, é necessário existir um elevado índice de suspeição. Descrição de caso: Adolescente de 12 anos, previamente saudável, observado no serviço de urgência (SU) por primeiro episódio de perda de consciência (PC) com cinco minutos de duração e hipertonia generalizada. Mãe com episódios de PC classificada como epilepsia, sem outros antecedentes familiares relevantes, nomeadamente sem história familiar de patologia cardíaca em idade jovem ou morte súbita. Exame objetivo e eletrocardiograma (ECG) sem alterações, referenciado à consulta de neuropediatria onde realizou eletroencefalograma normal. Apresentou novo episódio de PC 18 meses depois, com recuperação espontânea em segundos, recorrendo ao SU. Repetiu ECG – ritmo sinusal e intervalo QT corrigido de 511 ms, tendo-se diagnosticado síndroma de QT Longo. Foi referenciado a consulta de cardiologia pediátrica e genética, tendo sido identificada mutação genética e medicado com beta-bloqueador. Após revisão da história clínica materna foi pedida avaliação por cardiologia, com confirmação do mesmo diagnóstico na mãe e na irmã. Comentário: A síndroma de QT Longo caracteriza-se por um defeito da repolarização do miocárdio, associado a risco aumentado de morte súbita. As manifestações clínicas variam, desde ausência de sintomas até palpitações, síncope ou paragem cardíaca. Apesar da raridade, o diagnóstico é acessível através do ECG. No estudo de uma PC, a existência de um traçado de ECG prévio normal não invalida a sua repetição, uma vez que a alteração do intervalo QT pode ser inconstante. A existência de problemas cardíacos na família favorece a hipótese de síncope de causa cardíaca. Em caso de diagnóstico primário na criança deve ser efetuado um rastreio familiar de modo a despistar outros casos eventuais.
Ricardo Garcia Silva, Médico de Família, Sofia Piarali Remtula, Tiago Castelar Gonçalves
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 133-144; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i2.12784

Abstract:
Objetivo: Avaliar a evidência existente relativa à eficácia de canabinoides no tratamento da dor crónica. Fontes de dados: MEDLINE/PubMed, Cochrane Library, TRIP Database, National Guideline Clearing House, Canadian Medical Association Practice Guidelines. Métodos de revisão: Utilizando os termos MeSH cannabis e chronic pain fez-se, em agosto de 2019, uma pesquisa de meta-análises (MA), revisões sistemáticas (RS), estudos observacionais (EO), ensaios clínicos (EC) e guidelines, publicados em português e inglês, sem limite temporal. Incluíram-se estudos realizados em adultos com dor crónica, independentemente da causa, submetidos a terapêutica com canabinoides, excluindo-se aqueles com intervenção em dor aguda. Utilizou-se a escala Strength of Recommendation Taxonomy, da American Academy of Family Physicians, para atribuir níveis de evidência (NE) e força de recomendação (FR). Resultados: Dos 244 artigos encontrados, 16 cumpriram os critérios de inclusão: nove RS, quatro EC duplo-cegos aleatorizados e controlados com placebo, dois estudos retrospetivos de série de casos e um estudo prospetivo de série de casos. Todos os estudos selecionados abordavam dor crónica, mas de etiologia diversa (oncológica, neuropática, reumatológica, visceral). Os resultados entre os estudos não foram consistentes. Parece haver algum benefício na dor neuropática e na dor oncológica, embora haja consenso pelas revisões de que serão necessários estudos de maior dimensão e duração para que a utilização de canabinoides tenha evidência robusta. Podem verificar-se efeitos adversos gastrointestinais e nas funções cognitiva e motora, sobretudo com as preparações contendo maior dosagem de tetrahidrocanabinol. Não há evidência para utilização em dor de origem reumatológica ou visceral. Não se atribuiu NE 1 a qualquer estudo. Conclusões: A utilização de canabinoides, embora promissora e com eventual benefício identificado em pequenos estudos para alguns tipos de dor crónica (sobretudo a neuropática), tem evidência limitada (FR B) e requer a realização de ensaios de maior qualidade e dimensão. Devem ser considerados a eficácia e os possíveis efeitos secundários a longo prazo em estudos de maior duração, algo que poderá ser alcançado com a crescente utilização dos fármacos na prática clínica. Com base na evidência disponível, os canabinoides poderão ser uma solução de última linha em casos de dor refratária neuropática e oncológica.
Hugo Filipe Gonçalves Martins, Médico de Família, Inês Venâncio, Bruno Pinto, Rui Neto Fernandes
Revista Portuguesa de Clínica Geral, Volume 37, pp 68-75; https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i1.12757

Abstract:
Introdução: As pessoas em situação de sem-abrigo apresentam uma elevada probabilidade de desenvolverem doenças crónicas, o que as predispõe a complicações graves caso sejam infetadas com a gripe. Os objetivos deste estudo transversal foram identificar os critérios de elegibilidade e avaliar o impacto da vacinação contra influenza sazonal de pessoas em situação de sem-abrigo de Lisboa durante uma campanha vacinal. Material e métodos: A população alvo inclui pessoas em situação de sem-abrigo da região de Lisboa, no período compreendido entre 30 de novembro e 6 de dezembro de 2015. Todas as pessoas envolvidas deram o seu consentimento. Considerou-se significância estatística para valor de p inferior a 0,01. Resultados: Das 818 pessoas em situação de sem-abrigo em Lisboa, 382 (47%) foram vacinadas para influenza na época 2015/16. Das 269 pessoas sem-abrigo seguidas, 179 (67%) eram portadoras de uma ou mais doenças crónicas, 68 (25%) tinham antecedentes clínicos de infeções respiratórias, mas apenas 19 (28%) tiveram esse diagnóstico durante o Inverno de 2015-2016. Na sequência desta campanha de vacinação verificou-se uma redução significativa das infeções respiratórias (p
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